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Dislipidemia: novos olhares, novas condutas

 O que mudou no conceito de dislipidemia

Por muito tempo, o diagnóstico e o tratamento da dislipidemia — o desequilíbrio nas concentrações de lipídios no sangue — foram centrados apenas nos valores de colesterol total e LDL. No entanto, os avanços científicos nas últimas décadas transformaram essa visão reducionista em uma abordagem metabólica, inflamatória e multifatorial.

Hoje, a dislipidemia é entendida como um marcador do estado metabólico e inflamatório do indivíduo, com papel importante na síndrome metabólica, resistência à insulina e risco cardiovascular global. O foco deixou de ser apenas “reduzir o colesterol” e passou a ser modular o perfil lipídico dentro do contexto metabólico e do estilo de vida.


Do colesterol isolado ao perfil lipídico funcional

A avaliação laboratorial atual considera muito mais que o LDL. Fatores como o tamanho e densidade das partículas de LDL, o nível de HDL funcional, o índice triglicerídeo/HDL e os marcadores inflamatórios associados (PCR-us, ApoB, Lp(a)) têm se mostrado mais preditivos de risco cardiovascular do que os parâmetros isolados. Além disso, estudos demonstram que nem todo LDL elevado é igual: partículas grandes e flutuantes são menos aterogênicas, enquanto partículas pequenas e densas — comuns em dietas ricas em ultraprocessados e resistência insulínica — estão mais relacionadas à inflamação vascular e ao acúmulo de placas.

Essas descobertas reforçam a importância de avaliar o paciente como um todo, considerando composição corporal, dieta, resistência à insulina, uso de medicamentos e marcadores inflamatórios, e não apenas um número no exame. Mudanças nas recomendações nutricionais As orientações também evoluíram.

A antiga ideia de “reduzir gorduras” deu lugar à qualidade da gordura ingerida e ao impacto metabólico do padrão alimentar. Hoje sabemos que o foco deve ser:- Reduzir gorduras trans e ultraprocessados (que alteram o metabolismo hepático e promovem inflamação crônica);- Valorizar fontes naturais de gordura insaturada — azeite, castanhas, sementes, peixes ricos em ômega-3; - Aumentar fibras solúveis (aveia, frutas, leguminosas), que auxiliam na excreção de colesterol;- Controlar o excesso de carboidratos refinados, grandes responsáveis por hipertrigliceridemia e resistência insulínica;- Adequar o aporte proteico e o padrão alimentar mediterrâneo ou DASH, comprovadamente cardioprotetores.


Essas mudanças alinham-se à compreensão de que a dislipidemia é expressão de um metabolismo desregulado, e não apenas um erro no consumo de colesterol alimentar.


O papel do nutricionista: além da dieta, o comportamento

A atuação nutricional contemporânea vai além da prescrição. O nutricionista, ao compreender a dislipidemia sob a ótica funcional e comportamental, atua na educação alimentar, no reconhecimento de padrões de fome e saciedade, na adesão ao tratamento medicamentoso e na promoção de um estilo de vida anti-inflamatório — com sono adequado, manejo do estresse e atividade física regular. A empatia e a personalização são chaves para o sucesso a longo prazo, já que mudanças sustentáveis no comportamento alimentar têm impacto superior a qualquer ajuste pontual de nutrientes. Conclusão A dislipidemia não deve ser tratada como um número no exame, mas como um reflexo da saúde metabólica e comportamental do indivíduo.

As novas diretrizes e evidências reforçam a necessidade de uma abordagem integrada, científica e humanizada, que una alimentação equilibrada, prática clínica e consciência sobre o papel dos hábitos na prevenção de doenças cardiovasculares.

Em resumo: o futuro do cuidado em dislipidemia está em personalizar, educar e empoderar — e não apenas em restringir.


Referências 1. Ference BA, et al. Low-density lipoproteins cause atherosclerotic cardiovascular disease. Evidence from genetic, epidemiologic, and clinical studies. Eur Heart J. 2017;38(32):2459–2472. 2. Mora S, et al. LDL particle size and number as predictors of cardiovascular disease risk. JAMA. 2015;313(8):837–846. 3. Krauss RM. Atherogenic lipoprotein phenotype and diet–gene interactions. J Nutr. 2001;131(2):340S–343S. 4. Estruch R, et al. Primary prevention of cardiovascular disease with a Mediterranean diet. N Engl J Med. 2018;378(25):e34. 5. Appel LJ, et al. A clinical trial of the effects of dietary patterns on blood pressure. N Engl J Med. 1997;336(16):1117–1124.


Dra. Ana Costa Nutricionista Clínica e Comportamental CRN-6 42207 Atendimento presencial e online — Recife/Pe



 
 
 

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